Uns e outros…venenos e ostras.

Há pessoas que têm a beleza cristalina e angelical de uma água viva, passando com falsa leveza ao nosso redor, até que ao tocarem em nossas vidas nos mostram o veneno ardente de suas atitudes, palavras, seus pensamentos e sentimentos.

Enquanto isso, algumas pessoas se fecham como ostras e passam a construir valiosas pérolas no silêncio de seu interior, onde estabelecem idéias e ideais sem a constante necessidade de se auto-afirmarem em público às custas de fofocas e depreciação de outrem , mostrando assim que o brilhantismo do caráter compensa a medíocridade dos que dedicam-se mais a vida alheia do que a própria vida.

*

Enluarada

*

 

A dama das paisagens.

Inconstância…

Assim que o Sol leva o calor em queda livre no infinito do horizonte, sentada estou a observar um tudo feito de nada que se mantenha inerte. Rosas brancas dançam quais bailarinas esvoaçando saias de tule e cetim, ao som do vento lírico, rodopiando enquanto a brisa canta e espalha o perfume nas camadas coloridas do crepúsculo.

Tudo muda…

O verde do tapete gramado,
vira prata acinzentado,
eis a luz do meu luar.
Os olhos de um ingênuo e indomado
coração em peito alado,
são como céu a desaguar.
As linhas do cabelo trançado,
deslizam qual mar revoltado,
nos bancos de areia do amar.

Nada permanece tão igual…

A noite é filme inacabado, e eu sou desejo infundado, sonho inventado, delírios e devaneios que me salvam nessas paisagens inconstantes.
O despertar vem me avisar que são apenas breves encontros, mas os mais reais possíveis, no plano paralelo do sonhar…porém, são apenas breves encontros. Na manhã que respira a vida, o adeus já foi dito várias vezes, o querer se tornou vício. Vou lá pra mais um pouco de viver lindo. Vou lá, pois quem me visita nas flores ao vento, nas noites e nos sonhos de luz, avista em meus olhos infinitas e mutantes paisagens.

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Enluarada

*

“Nada dura para sempre. Nem mesmo a fria chuva de novembro…”

 

Identidade.

Tento me focar no espelho mas há uma imagem distorcida. Tento evocar meu ego, mas me pego perdida entre o que realmente desejo e o que a vida me confere em realidade. Sinto um torpor dolorido no peito, nas pernas, nas mãos e em vão tento me reanimar.
O que eu realmente quero? Céus, só mais um pouco de alento pra esse coração perdido de Lua sem Sol…

Um brilho prateado cai de meus olhos
e há uma dor fincada em meu peito
a força do desejo está trançada em meu luar
segurando os pedaços de meu coração,
mas só ouço desculpas e letras de canção

Há um refúgio sequer?
Há um deleite aonde chovem perdas,
há um refrigério aonde acaloram-se danos?
Encontro a mim mesma, mas sem respostas.

Bate à porta minha identidade ferida,
meu ego despetalado em busca de saída.
A noite é sem sentido quando os sonhos fogem
e as estrelas são meu pranto refletido.

Já quis ser ave, astro e nuvem,
almejei o rumo do vento e a voz da brisa,
almejei a distância e amei,
amei mais do que pensei que fosse possível,
em letras, em ilusões, em versos.

Amei em gritos da alma, em pecado,
em virtudes e em inocência,
jurei aos segundos minha paciência,
perdi meu caminho no retorno…

Agora o abandono…
abandono por mim mesma de meu reflexo,
as dúvidas e um destino sem nexo,
e a incompreensão de quem não tem poesia.

Que me diz poesia?
Quem sou agora enquanto meu ser chora,
por qual vão gotejarei enquanto meu íntimo implora
por respostas no clarear de meu dia?

É como um punhal me atravessando,
uma dor que por sinal já senti outras vezes,
há não muitos meses quando me senti em desamor,
conheço bem essa dor.

Manhã tardia, vida em neblina,
e saudade e mais saudade…
…do que se foi e não tenho mais,
do que jamais tive e ainda anseio,
saudade e medo…

…como se fosse possível ainda andar de mãos dadas
com quem se confia um doce segredo.

*
Enluarada
*

As chamas de meu coração me cobram lembrar que quando mais precisei, quase ninguém estava lá…mas quem estava? Quase nunca, ninguém está.

“Agora está tão longe ver, a linha do horizonte me distrai…aonde está você agora, além de aqui dentro de mim?…Agimos certo sem querer, foi só o tempo que errou, vai ser difícil sem você, porque você está comigo o tempo todo e quando vejo o mar, existe algo que diz QUE A VIDA CONTINUA E SE ENTREGAR É UMA BOBAGEM, já que você não está aqui o que posso fazer é cuidadar de mim…quero ser feliz ao menos, lembrar que o plano era ficarmos bem…”

Sou.

Sou maré feita de lua, ora alta, ora baixa, ora onda que se encaixa no vão da areia de um renascer.

Sou o vão também. E areia. Vão do querer, o espaço entre o desejo e o beijo, areia do tempo, corrente entre vidros, despejando momentos.

Sou o transbordar da paixão nesse mar que revolto espalha mistérios, a música que o silêncio canta, a melodia da maresia, dançada pelos ventos.

Sou os contos e mitos, os ditos transcritos, o que puxa para o fundo e eclode em vida, sou a certeza e a dúvida, a destreza no lutar.

Sou teus olhos querendo brilhar, o deitar e o levantar, teu encontro com a paz, teu desvendar.

Sou a barreira do medo, que transformo em brinquedo ou em canção de ninar. E afasto de mim o pavor, o torpor, pois sou…

Sou cartas em garrafas, a ti destinadas, jurando que chegarão, como um raio de sol em meio à escuridão, guiando meu chão, pelo sim, pelo não.

Sou dia, em luz acesa e calor, sou noite, em espera, refletindo luzeiros, coletando estrelas e com elas brilhando.

Sou as belas asas da libertação, sou segredo aberto ao coração, o desvelo ao início de mim, sou zelo.

Sou procura, a tua, que nessas marés se mistura, e ainda vem e vai. Mas sou ainda mais.

Sou o que busco ser. Sou encontro, mesmo que por acontecer, sou abraço, carícia, euforia, emoção.

Sou descoberta, sem negação, maremoto e furacão, por ti sou explosão e aventura, sou a dor e a mesma que cura, sou fera, sou mansa, sou dócil, sou criança.

Sou a esperança do enfim, sou a entrega de mim, a um sentimento que é.

Sou verdadeira, escorro inteira, qual cachoeira nos penhascos onde me encontro, e sou eu em você.

Sou tudo, enquanto puder amar. O eternizar. Porque o amor nos faz ser. Mesmo sem querer.

*

Enluarada, em 23/02/2010

*

 

“Ah, esses versos meus…tão seus…”

Bem mais que o tempo
Que nós perdemos
Ficou prá trás
Também o que nos juntou…

 

Ainda lembro
Que eu estava lendo
Só prá saber
O que você achou
Dos versos que eu fiz
Ainda espero
Resposta…

Desfaz o vento
O que há por dentro
Desse lugar
Que ninguém mais pisou…

Você está vendo
O que está acontecendo
Nesse caderno
Sei que ainda estão…

Os versos seus
Tão meus que peço
Nos versos meus
Tão seus que esperem
Que os aceite…

Em paz eu digo que eu sou
O antigo do que vai adiante
Sem mais eu fico onde estou
Prefiro continuar distante…

Se eu pudesse.

Há um amor, raiar de sol em meu horizonte,

há um coração que ao te sentir acelera contente.

Ah,  se eu pudesse…

Há um anseio que percorre meus lábios que imaginam-se nos teus,

perdidos a sentir o calor da pele de teu rosto.

Há um desejo que me encanta em cada centímetro de meu ser.

Ah, se devorasse-me com teus olhos apenas para atiçar o brilho dos meus!

Se pudesse lhe tocar, tocaria como a onda toca a areia

- de leve, sussurrando um mar em ti,

fazendo-te sentir se misturando em mim.

Se pudesse lhe beijar, lhe beijaria como a Lua beija o Sol,

num eclipse de delírios, abraços e confissões,

à meia luz de um encontro no infinito.

Se eu pudesse, faria-me leito para teu descanso,

se fosses rio,  seria remanso e nas curvas do meu corpo,

deixarias o teu fluir livre a desaguar o amar.

Se eu pudesse…

Tornaria-me vento, uma estrada, uma flor da noite ao relento,

esqueceria os riscos e rabiscos da vida, esqueceria o silêncio,

mesmo que fosse por uma fração de momento,

para encontrar a plenitude do amor sem dor

e fazer-me recordação eterna de um doce sentir.

Quem me dera, se eu pudesse.

*

Enluarada

*

 

Distração.

Distraída estava, distraída andava, mas era quase sua tentativa de perfeição que a prendia. Tudo olhava pensando ser exata, pisava no chão evitando as rachaduras por hábito, pulava as poças, apoiava-se no muro, deslizava os dedos pelas grades dos portões para fazer barulho. Achava que estava certa. Mas estava distraída. Horários rigorosos, sentimentos moldados, expectativas frustradas. Tentava. Era o certo afinal, acreditava. O que era aquilo que deixava sua boca seca e um aperto no coração? Desconhecia. Se não houvesse cura, conviveria com isso. Decerto continuar firme em tentativas frustradas de acerto, um dia compensaria – pensava. E ia. Cedo, tarde, noite e madrugada. Até o sono era monitorado inconscientemente, enquanto não dormia. O descanso era apenas uma ilusão, porque se achava uma distraída.

De tanto tentar fixar-se, sucumbiu. Foi como uma folha solta que o vento sopra e de leve leva e quando menos se pensava, surgia. Ávida, a vida descobriu, quando finalmente sem querer se distraiu. Agora era de verdade. De se importar desistiu. Desistiu de esperar pela emoção, desistiu de recolher os cacos só porque se espalhados os outros veriam, resolveu deixar ao léu o coração que já se resguardava apenas à função de bombear o sangue. Agora, nessa distração havia mais sentido do que nas tentativas perfeccionistas de ser modelo aos olhos alheios. Agora, ela descobrira que ao ser ela mesma, havia em quem despertara admiração.

Desnuda de travas, jorrou sentimentos e flertou com o desconhecido. Aquilo que deixava sua boca seca e um aperto no coração continuara, mas transmutara de motivos. O coração apertado agora batia forte, mais pela ansiedade da espera do que pela exigência da angústia. Descobriu que se distraindo, veria mais, prestaria mais atenção, sentiria mais gostos, provaria mais delícias do que quando pensava estar atenta. Percebeu que na ânsia de acertar, tudo parecia dar errado, mas quando se deixou levar, seus rumos encontraram um sentido. Seu coração encontrou uma razão. O que sempre buscara sem perceber, veio a seu encontro, quando havia desistido.

O que era um quadro cinza e desbotado ganhou um colorido animado quando seu peito abriu. Pincéis e tintas figuravam em sua doce desistência de ser infeliz. Agora, não esperava mais. Nem pedia. Nem ficava atenta.

O telefone que não tocava enquanto esperava, lhe causava delírios ao soar no inesperado. Os recados tão aguardados que nunca chegavam lhe emocionavam quando ela os via chegar de supetão. As flores que um dia sonhara receber, e pedia…surgiram em sua frente. Não, não por meio de a quem pediu. Mas por meio de quem jamais esperara. Foi quando parou de observar, de procurar, que encontrou.

Aprendeu que deixando o rio seguir seu fluxo era mais fácil de navegar. Que não poderia segurar os acontecimentos com as mãos. Nem forçá-los com uma alavanca de desespero. Simplesmente passou a respirar e a sentir os perfumes dessa vez. Fosse o que fosse, era o que queria. Livre, ave, sol, sonhos – a realidade abrindo as cortinas. Era a vida se mostrando enquanto ela acreditava que amar era coisa de quem tinha sorte. E era.

*

Enluarada

*

“Há impossibilidade de ser além do que se é …
a única verdade é que vivo.
Sinceramente, eu vivo.
Quem sou?
Bem, isso já é demais….” – Clarice Lispector.

Quero sonhar…

Quero sonhar…

com o toque de tuas mãos por minha seda pele

arrepiada pelo êxtase de tua presença.

Quero sonhar…

com o passeio de teus lábios pelos vãos de meu ser

até que qual rio de delírios

desague beijos ao encontro dos meus.

Quero sonhar…

com teus olhos que trazem calma

e que com doçura afagam minha alma

enquanto me dizem em silêncio o que eu sempre soube.

Quero sonhar…

que me aqueces com teus braços

e que perdida em teu abraço possa sentir o calor

de quem minha alma tem esperado.

Quero sonhar…

com tua voz em meus ouvidos sussurrando teus gemidos,

melodiosa poesia declamada em forma de paixão.

Quero sonhar…

que estás aqui tão perto,

que inundou o meu deserto com tua presença,

oásis onde descanso o meu querer.

Quero sonhar…

pois quando lhe tiro de meus sonhos,

te faço real, mesmo à distância, mesmo na ânsia de por ti viver.

Quero sonhar…

porque em meus sonhos não há limites para te amar.

*

Enluarada

*

Meus sonhos são apenas lembranças do que ainda não aconteceu…mas que está dentro de mim.

A luz que me faz amar você.

Caminhando nesta noite que se iniciava,

caindo qual cortina colorida em degradés de tons escuros,

ansiosa esperava o bordado de estrelas surgir.

Cada estrela reluzindo o reflexo do meu olhar.

E de cada uma eu me punha a invejar .

Não, não era o brilho delas que  eu invejava.

Era o fato de saber que de onde elas estão

tanto podem lhe ver quanto podem ser avistadas por ti.

E eu, não…

Porém, por mais que as estrelas brilhem, reluzam, aqueçam,

não podem lhe desejar tanto quanto o meu coração.

Nem podem as estrelas lhe ter nos sonhos,

mesmo tendo todas as noites à disposição .

Essas mesmas estrelas de lá do alto

vêem como nosso mundo é pequeno,

como tudo cabe no espaço do amor,

espaço infinito que se resume ao momento

em que meus olhos encontrarem os teus

pedindo a união de nossos lábios,

quando então a mais brilhante estrela

parecerá insignificante ante a luz que clareia o meu viver.

A luz da tua alma, que me faz amar você .

*

Enluarada

*

Estrelas, levem a meu amado meus beijos incandescentes, meu olhar reluzente e a certeza de que tanto quanto são eternas essas que brilham, assim é meu sentimento.

Olhos da alma.

Enxergo-te com os olhos da alma. Há muito tempo que para mim tu és muito mais do que os lábios que desejo e o corpo que anseio junto ao meu. Perfeita essência de amizade, o dom da verdade que imortaliza o amor em meu coração.

É canção da brisa suave que traz longínquos segredos que me revelam o puro querer, é meu doce carinho que aguarda poder voar e pousar no teu ninho. São estrelas que brincam de brilhar como se fossem migalhas de luz conduzindo-me no caminho ao teu encontro, é o chão de céu que me faz enluarada quando penso no teu raiar de sol.

Raiar que me clareia e incendeia meus sentimentos, lume de emoções atiçando essa ânsia quase que inconsciente, inconsequente, espontânea. Sinto-te com o sentir mais profundo, sem ter explicações nem porquês. Apenas sinto-te perto mesmo estando longe, como a senda clara da lua riscando o mar feito giz luminoso, como se fosse um beijo ardente no momento em que o horizonte toca o oceano.

Quero-te como o pulsar de minhas veias que me mantêm viva, como o ar que me rodeia e traz perfumes que me fazem te imaginar. Encontro razões lúcidas ao mesmo tempo em que mergulho em sonhos mágicos, entrelaço meus dedos nas mãos do tempo e puxo com afinco desejando ser atendida: vem! Traga-me a alegria de teu olhar e sorriso, deixe que eu me perca no teu paraíso, faça de mim teu oásis se houver deserto perto, faça-me teu leito e descanse na paz que quero te dar.

Assim como o infinito existe e não se vê, e nele cabe tanto quanto o universo puder fluir, assim é a dimensão de minha esperança baseada nessa entrega. Dela não posso fugir estando rodeada por esse espaço onde tudo me lembra você.

*

Enluarada

*

“És vertente de palavras formando um lago de emoções, tomando minha existência com tudo o que eu sempre quis sentir.”

Gotas de luz.

A Lua tocou a gota de orvalho

que se desmanchava na face da flor.

Era uma lágrima de amor.

Minúsculas luas se abriam em gotas,

de amor se abriu o conto,

de rima me posto em dor.

Cada gota um verso iluminado pela clara luz,

disperso sentia escorrer poesia,

ao som de uma rima que nasce,

puro enlevo em meu amor que crescia,

palavras e som, melodia.

Dançava o coração

pelos vãos da saudade que sentia,

emanava assim a vontade da boca que não beija

e das mãos que te acarinham.

Transcendia a verdade da distância

que se convertia  no mais profundo anseio,

a verdade em si mentia, amaria

e sonharia existir em devaneios infinitos

que inventavam a presença

como se pudesse seus lábios sentir .

Marcada a carne, sofrida a alma,

meu dom é sofrer  sem mentir.

Cada letra em que se pinta a verdade,

faz em seu peito obra de arte .

Ode pura de manto nobre,

meu pranto por cada parte,

alarde de minha alma,

ecos que a mim retornam e retomam a solidão.

Ressona em meu amor o seu nome,

lira divina que me acolhe em seu não,

negue-me mais, pois ainda assim seguem infinitas

as gotas de tua existência na luz de meu coração.

*

Poema conjunto por Enluarada e Gente Fina .

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